um espaço de histórias, estórias e o que mais!
varandas e estradas... meus locais preferidos e que, para mim, foram feitos para se dividir.





sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

uma história (para o Rio Jequitinhonha, cujas águas muito já me banharam)


João das Couves, o sol, e o amor pelo rio



Como se o rio sentisse... Sentisse choro travado na hora que areia chegava, e esticava até os braços na hora que a tarrafa danada saia da água, Ah mais sentia.
Assim sentia seu João das Couves quando todo dia descia a serra voltando para casa do arraial. Via o rio lá de longe, lá longe como se quisesse correr pra cima pra fugir do que lá em baixo envinha. Gostava de ver o rio, mas de uns tempos, lutava com a vontade de virar o rosto. É que mesmo a tardinha, quando o sol ia se banhar nas águas deixando aquela cor toda de namoro fresco, o rio não brilhava como antes. Só se deixava colorir. Mas com cor fraca, opaca, anuviada que só.
Seu João das Couves não gostava de ver o rio assim não, quase que perdendo a vontade de meandrar, comer barranco, levar peixe para desova e peixinho pra nadar. Crescera molhando o rosto no rio, catando pedra que rio num queria mais, e tendo ele sempre ele ali, como companheiro de partida e de chegada. Ele queria ver o rio forte bonito como antes, e que mesmo que mais fraquinho ficasse, esperando a chuva para correr mais ligeiro, seu João das Couves queria que o rio continuasse tendo sua fama, suas histórias, seus segredos. E vendo ele assim, daquele jeito, tinha medo que o rio virasse só história, conversa de gente de mais idade.
Cada dia que passava, e seu João das Couves descia a serra pra casa, pensando no bem querer que sentia pelo amor de Marieta, e de todas as prosas que tinha tido com a formosa moça ainda no arraial, quando avistava o rio se esquecia da conversa e da formosura de Marieta, e o saldava com saudade que já chegava. Descia a serra, fazendo os devolteios da estrada, se lembrando de quando menino, pequeno, via o rio, grande. E agora ele ali grande e o rio só se apequenando. Dantes o rio é que levava a areia, agora a areia é que leva o rio, e ninguém sabe pra onde. “Vontade de cavar areia para ver se o rio brota de novo, sá.”
Pensamentos é que não faltava na cabeça de Seu João, e lágrimas acompanhavam o pensamento, quando em vez, espiando o frio da brisa. E os pensamentos levavam João das Couves pra casa, junto com o rio e o sol que se banhava nele.
Teve tempo que seu João das Couves adoeceu. Num ia ao arraial passar as couves, não via o movimento do Tijuco, as cores do Amparo, não ouvia mais os sinos da matriz, só tinha as conversas de Marieta, que com saudades ia visitar, sempre com o sorriso e as flores do vestido. Muito tempo se deu pra seu João das Couves poder sair. Teve gente que nem botou fé na saúde do homem. Foi tempo pra mais de ano. De fazer aniversário. Marieta até que levava as couves para passar no arraial quando ia visitar seu João. Teve gente que brincava e já chamava a moça de Marieta das Couves. Ela nem que ligava, até que gostava da brincadeira.
Choveu muito na serra, cresceu menino por lá, até que seu João tomou o fôlego de novo, arrumou as couves na mula e lá se foi pro arraial. Na curva da serra de onde o rio se despedia dele, seu João das Couves olhou pra trás e viu o rio. Tinha driblado areia, cavado fundo e tava ali. Grande. Grande que só. Com força que só ele.
Seu João das Couves foi pro arraial, passou as couves e mesmo com muita prosa pra botar em dia saiu mais cedo com a mão de Marieta na sua, e foi descendo a serra, com sorriso e vontade que chegava de saltar, que nem bolinha de gude quando foge da mão de menino desembestada morro a baixo.
Seu João desceu a serra até o rio, tirou as sandálias pegou Marieta com um beijo e se soltou. Soltou-se nas águas do rio que tinha brilho e cor de namoro fresco. E junto com o sol amou Marieta.



Vanessa Linke, inverno de dois mil e quatro

0 comentários:

Postar um comentário