Após longos dias de silêncio, retorno. E retorno compartilhando meus devaneios de uma noite de insônia no quarto de hotel do qual agora escrevo.
Com a mesma mania cultivada desde a infância, repito diversas vezes a música que toca em fiozinhos com pequenas caixas de som em uma de suas extremidades. E com uma certa ânsia, que não sinto talvez desde meus quinze anos, velejo pelos mares das vontades de mudar.Vontade de fazer a vida tomar um rumo outro. E tudo isso, um quê de melancolia e uma espinha enorme no queixo me fazem ressentir minha adolescência.
Às vésperas dos meus trinta e um anos “readolesço”.
Com a típica desordem dos meus pensamentos, que fluem por caminhos por vezes tortuosos e estranhos - talvez esquerdos demais – revejo escolhas e histórias. E mais do que quaisquer outras sensações, deixo a vontade do novo crescer.
E de uma forma talvez boa demais comigo mesma, me deixo tomar por sonhos daquilo que ainda desejo ser.
Quando tinha quinze anos, queria, para quando adulta, uma vida saudável, com cachoeiras, amores, filhos, frutas, muitos legumes e consciência politica. Aos trinta, tenho amores, filhos, e perguntas a respeito do que até então eram minhas convicções políticas. Mas, me faltam as frutas, os legumes e mais cachoeiras que não apenas vistas da estrada.
Desejo as frutas, os legumes e a caixa branca de leite.
Não quero mudar de casa, ter uma rotina absolutamente distinta da minha correria entre malas, bolas, raquetes e desenhos.
Quero novos hábitos.
Quero conseguir fazer esporte. Nadar pela manhã alguns dias da semana.
Vou comprar um tênis branco.
Vou com ele correr em outros dias cruzando com as pessoas e imaginando o que elas ouvem no aparelho que transformou a musica em algo absolutamente “portável”, enquanto eu ouço Cartola, Naiv, Clash, Bezerra. BB king, Beirute...
Ao invés de comer biscoito no meio da tarde, quero comer muitas cores. Maçãs vermelhas, goiabas brancas, abacaxi da massa amarela. Morango de ruínas (não sei como se chamam essas frutinhas, que como presentes, brotam em meio a muros de pedra, alicerces antigos situados onde parecia não haver nada. Quando criança roubava destas frutinhas com minha prima e as chamava de framboesa- mas nunca soube como eram framboesas. Depois passei a chamá-las de moranguinhos silvestres. Hoje gosto de morango de ruína).
Quero também vencer minha preguiça e estudar o que quiser, entregar o relatório em dia, não esquecer da reunião. Deixar a “postergação” para coisas que não são tão importantes para mim. Quero escrever aquele artigo e deixar que aquela história inspirada no sertão se desenhe.
Quero ter ao menos cinco minutos diários de silêncio, e ao menos dez de gargalhadas.
Quero minha introspecção. E quero dias moleques fazendo caretas para quem estiver dirigindo ao meu lado.
Quero pegar o metrô em dia de segunda e fotografar a cidade. Quero chegar cansada do trabalho e ver o desenho novo na parede da cozinha.
Quero me deixar descansar em colo macio e ouvir estórias. Dormir abraçada e abraçando.
Tomar leite gelado olhando as montanhas.
Ir no parque. Comprar balão. Quero ter capim cidreira em casa. Rir de palhaço. Passar protetor solar. Fotografar sempre. Ir ao cinema. Muito!
Quero mais vermelho no meu guarda roupa. Quero a calma. Tranqüilidade. Quero confusão de irmão. Quero reciclar. Estudar português.
Rir com o Galpão.
Irritar-me menos. Quero abrir mão de prazeres voláteis por aqueles que parecem ser mais duradouros e não nocivos. Menos chocolate mais água, menos coca-cola mais água.
Quero ouvir a critica.
Falar menos.
Perder menos tempo com o que não concordo.
Abraçar do nada.
Assistir filme em preto e branco.
Quero o mundo que meus braços alcançam. Quero mais. Quero bem.
E quero que todas estas coisas sejam a minha vida adulta.
Readolesço por ser, enfim, mulher.
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Hoje tenho 33 e desde que postei este texto só hoje o reli. Tenho várias das coisas que disse que queria. As frutas, colorem o meu dia. Os desenhos, os colos me descansam. O cinema me entretem, o Galpão me sorri. Tenho, ao menos, trinta minutos de introspecção diários. O tênis branco já ficou velho e o guarda roupa ganhou muitos vermelhos. As cachoeiras ainda me aguardam e aquele artigo não foi publicado. Vários abraços surgiram, surgem e tomam a mim e àqueles com quem divido segundos, minutos ou horas do meu dia. O metrô ainda não levou minha máquina, mas levará. O sertão contém todas as estórias e elas aos poucos se revelam, assim como os personagens que as constroem e as inspiram. Hoje falo menos, me irrito menos. Reciclo e tenho em casa capim-cidreira, alecrim, manjericão, hortelã e cheiros outros no meu quintal! A pintangueira ganhei. O tomate também. Leite agora só da vaca e não da caixa, vem no vidro e a vaca é feliz. Minhas convicções agora são mais filosóficas e menos políticas. Ainda ouço a mesma música várias vezes, e quero mais, e quero bem. Cresço, adolesço e me vou vivendo mulher.
ResponderExcluirMuito bom texto!!! Espero que em breve sua máquina passe a andar de metrô, seu artigo termine a gestação e venha à luz, quem sabe dando mais tempo para as cachoeiras, na companhia do colo aconchegante... e, mais que tudo isso, que seu readolescer traga cada dia mais bons desejos a serem realizados com saúde, alegria, amor e PAZ!
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